Um tour pelo patrimônio histórico de Alagoinhas

 





Paulo Dias

DRT- Ba 1903

Para o Gazeta dos Municípios



Pense em uma região de pequenas chácaras, beneficiada por um conjunto de lagoas próximas ao rio Catu, abastecido pelo rio Aramari. Assim era o centro de Alagoinhas até quase o final do século XIX. A vida urbana incipiente desenvolvia-se mansamente do outro lado, em Alagoinhas Velha. Veio o trem de ferro e tudo foi aterrado para a construção de casas comerciais, moradias e prédios públicos. A cidade despontou para o cenário baiano e para parte do nordeste, mas preservou algumas chácaras e ainda muito daquela paz. Ganhou um vigor operoso e charme urbanístico e cultural.



Até a década de 60 do século passado, Alagoinhas era uma cidade bastante desenvolvida e igualmente aprazível. Ruas bem esquadrinhadas e largas, bastante arborizadas, casarões belos e aconchegantes, situados em chácaras remanescentes no centro da cidade, principalmente no Teresópolis, no 15 de novembro, na rua Luís Viana. A cidade era um verdadeiro pomar. Banhos no rio Catu e Aramari, na Fonte dos Padres e em vários riacho


A cidade tinha vida intelectual intensa também com seus cineteatros, apresentações das filarmônicas Euterpe e Siciliana, em praça pública, e de grandes astros da música nacional, jornais aquecendo, enriquecendo e dinamizando o debate público. Pedro Marcelino, Juscélio Carmo e Iraci Gama, todos eles têm este cenário em mente, esta atmosfera prazerosa e edificante, este olhar de todos e de todos os setores voltado para o bem comum. Por isto visar para o passado e planejar o futuro fazem parte do mesmo movimento, conduzido pela mesma força desejante e integradora



A bela e irrequieta cidade era lugar comum de figuras como Octávio Mangabeira e Miguel Calmon, quando ainda deputados Federais, no tempo em que Saturnino Ribeiro se elegeu intendente com o apoio do governador Joaquim José Seabra e do senador Joaquim Climério Dantas Bião (1856). Este último veio a contribuir decisivamente com a construção do Hospital em 1950 e doou o terreno da estação de pesquisa da extinta Ebda. Era um tempo em que os empresários se interessavam de forma destacada pelo desenvolvimento da cidade. Dez anos antes, o Ginásio de Alagoinhas passa a ser gerido pelo sistema de cooperativa, formado por comerciantes e donos de trapiche de fumo.


Estudaram por lá pessoas que obtiveram grande relevância profissional como Nonato Fontes - cirurgião plástico, José Antônio Almeida Souza – cardiologista, José Péricles Esteves – cardiologista, Antônio Torres – escritor, Lauro Farani de Freitas – engenheiro, Pinto de Aguiar – advogado, Leonardo Cardoso, o goleiro Nadinho, campeão brasileiro pelo Bahia. Se notabilizou como seu diretor o professor Arthur Pereira de Oliveira, por mais de três décadas (1955-1990). O pai do fotógrafo-cinegrafista Iron Arthur, segundo pesquisa do jornalista Belmiro Deusdete.

Era uma cidade que reunia harmonia ecológica, empreendedorismo e vida cultural. Apontada por muitos como a principal cidade do interior da Bahia. Chamou a atenção de Euclides da Cunha, que lhe dedicou lisonjeiras linhas no Diário de uma expedição, em 1897, na época dos engenhos de cana de açúcar, conforme o historiador Américo Barreira ( Alagoinhas e seu Município – 1902) , citado por Aline Najara da Silva Gonçalves (em seu artigo “Uma cidade sem escravos: Memória, História e silêncio em Alagoinhas”- 2015).


“Alagoinhas é realmente uma boa cidade extensa e cômoda, estendendo-se sobre um solo arenoso e plano. Ruas largas e praças imensas; não tem sequer uma viela estreita, um beco tortuoso. É talvez a melhor cidade do interior da Bahia. Convergem para ela todos os produtos das regiões em torno, imprimindo-lhe desenvolvimento comercial notável”, disse.


Segundo Barreira, o município foi um dos primeiros a aderir à República, embora tenha se atrasado quanto a abolição da escravatura. O autor cita que, em Recenseamento do Brazil em 1872, aponta-se uma população composta por 3763 escravos em Alagoinhas, sendo 1887 homens e 1876 mulheres, a maioria nascidos no Brasil e analfabetos. Entre 1857 e 1859, nos Livros de Registro de Terras da Freguesia de Santo Antônio de Alagoinhas, contam-se cerca de 36 engenhos na região, além de grandes Fazendas, registrando-se propriedades com cerca de 900 tarefas de terra e até mesmo 2770 tarefas. Ele menciona que há indícios de escravos trabalhando na construção da ferrovia.


A chegada da estrada de ferro foi providencial, os engenhos estavam em decadência pela exaustão do solo e por impacto da abolição da escravatura, entre outros possíveis motivos. Com uma velocidade estonteante, suas portentosas engrenagens provocaram uma rápida concentração populacional e possibilitaram que a produção de fumo e de couro chegassem a vários pontos do estado, alcançando o atendimento ao mercado do Recife ao Piauí, como conta Juscélio Carmo, sobre o tempo em que seu pai, Júlio Carmo, a partir de 1938, dominou o comércio de fumo de rolo em todo sul da Bahia e depois passou a exportá-lo para a Europa, pelo fato da cidade estar interligada ao porto. 


Algumas décadas depois, se desenvolveram o plantio e o comércio da laranja de umbigo, com destaque para o produtor Coronel Santinho, do Riacho da Guia. Tudo em Alagoinhas era planejado visando uma demanda estadual. E tudo que era vendido para a região passava por Alagoinhas. Virou também o território dos caixeiros viajantes. Por isso, onde hoje é um supermercado, na praça JJ Seabra, havia o Hotel Roma e próximo à Prefeitura, o Hotel Denver, na rua 24 de maio, existia uma série de pousadas. O fluxo de pessoas da região também era intenso para resolver negócios e para fazer compras ou, para alguns, passar os primeiros dias até se instalar de vez na cidade.



A lei de tombamentos de prédios públicos é de 2012 e envolveu 20 imóveis, vamos visualizar alguns deles para se ter uma ideia do centro de Alagoinhas na primeira metade século XX (ou até os anos 60). Vamos fazer um tour por esta cidade, por este museu a céu aberto, como diz sua principal memorialista, Iraci Gama. Vamos imaginar que a catedral (que chamam igreja Matriz) e a Prefeitura já existiam, este último foi inaugurado em 1880. A Famosa Fonte do Lima ficava quase em frente à igreja. O Correio é um prédio mais novo, de 1936.


Onde hoje está as Casas Bahia, situava-se o trapiche e a residência do comendador Moreira Rego, o primeiro edifício com telhas cerâmicas da cidade, construído também no final do século XIX (1884). Indo para o 15 de Novembro, onde, há bem pouco tempo, havia uma locadora de veículos (próximo à Central de Abastecimento), encontrava-se o trapiche da família Carvalho Junior, de 1884, que passou para a empresa de Almerindo Portugal, transferido para próximo ao Mangalô por Carneirinho quando era gerente da empresa, depois foi prefeito da cidade (1967-1971). No local ocupado pelo G Barbosa também havia um trapiche e depois, passou a ser uma casa de vinhos.


Mais próximo da praça J. J. Seabra, ficam localizados o armazém e o trapiche de Saturnino Ribeiro, de 1920. Morava em um casarão no Teresópolis, onde depois passou a funcionar a maternidade de Maria Jaqueira. Foi intendente de 1926 a 1930, abriu mão do seu salário em prol do município, trouxe a luz elétrica a motor e depois a interligação com a Chesf. A Prefeitura atuava como uma distribuidora de energia. Ele atraiu a primeira representação bancária para a cidade e participou da cooperativa responsável pelo Ginásio de Alagoinhas, instituição pioneira no ensino em segundo grau no município, sob a coordenação de Carlos de Souza Cunha. Bem como, tempos depois, atuou na criação da Escola Comercial de Alagoinhas (1948). Apoiou as filarmônicas e criou o Pavilhão Bar, onde as “senhoras e sinhorazinhas” tomavam seu chá das 17h. A Estação São Francisco foi construída por ingleses e a rede férrea, administrada por franceses.


Seguindo, nas proximidades encontrava-se o trapiche de Joaquim Cravo (1930-1937), na esquina da rua D. Pedro II com a Visconde de São Lourenço, onde funcionou a Toque Final, em frente à Farmácia Silva Rocha e, finalmente, nas imediações do G Barbosa sentido Alagoinhas Velha, o de Júlio Carmo, pai do prefeito Judélio Carmo e do empresário Juscélio Carmo. Este conta que o irmão já mostrava vocação política precocemente quando foi apanhado pelo pai, em cima de um monte de lenha, pregando a CLT para os 150 funcionários da empresa. O pai gritou: - Comunista, desça daí!!!


Joaquim Cravo foi intendente (1867-1938) por dois mandatos, parente da vereadora Áurea Ribeiro Cravo, pai de Mario da Silva Cravo, prefeito e deputado estadual, avô de Mario Cravo Junior (1923-2018), escultor e grande nome do modernismo brasileiro e bisavô de Mario Cravo Neto, também escultor e fotógrafo renomado. Pessoa também relevante foi Antônio Martins Carvalho Junior, prefeito por dois mandatos, teve seu filho Darcy, então vereador, assassinado em uma sessão plenária. Morou no 15 de Novembro no prédio que foi a CNEC, conta Pedro Marcelino.


Os curtumes se localizam em áreas mais afastadas nas proximidades do Centro de Cultura – Câmara de Vereadores, ali se encontravam o Santo Antônio, o São Francisco e o São Paulo, este, mais afastado, margeando a linha do trem. Havia um importante curtume na Fonte dos Padres, onde fica a Bracell, perto do Rio Una, chamado Santa Cruz da família Cardoso, a qual pertence Marco Antunes, ex-deputado Estadual. Juscélio Carmo fala de um trapiche em frente ao convento São Francisco, de Veridiano Alves de Souza, que muitos desconhecem a existência. A técnica do fumo de rolo foi herdada por seu pai deste produtor.


As casas comerciais e residenciais e seus proprietários ilustres – Comecemos, por questões espaciais a partir de Graciliano de Freitas, que teve uma tipografia e um jornal, no calçadão, rua Anísio Cardoso, antiga rua da Câmara e morou na praça Rui Barbosa, onde funciona o HCA, um dos prédios históricos mais bem conservados junto com o da antiga escola Farda Branca, do outro lado.


Anísio Cardoso, por sua vez, foi grande empreendedor do comércio. O filho de Graciliano, Lauro Farani de Freitas ( 1901-1950), ocupou o cargo de superintendente da Companhia Férrea Leste Brasileira, morreu tragicamente em desastre aéreo em campanha para governo do estado. Construiu a terceira Estação Ferroviária de Alagoinhas perto dos fundos da Prefeitura – a primeira fica onde hoje funciona a estação de transbordo, edificada em 1863. Lauro de Freitas dá nome à cidade desmembrada de Salvador. A capital, em reconhecimento à sua atuação na ferrovia, o homenageia com um busto em frente à Estação Ferroviária da Calçada, cujo trem que saía de Alagoinhas desembarcava.


A propósito, onde situa-se a loja a Barreto, funcionava o melhor empreendimento comercial de variedades da cidade, a casa São José de Francisco Nunes, seu irmão era proprietário de uma outra loja, no prédio onde hoje está a farmácia, na qual recentemente houve o desabamento de sua marquise.


Depois da São José, encontrava-se a loja de Zequinha Azi, prefeito da cidade de 1959 a 1963, pai do empresário e radialista Haroldo Azi, irmão do deputado Federal Jairo Azi e tio do deputado Federal Paulo Azi. O estabelecimento ficava onde funciona a sapataria Éconis. Próximo à loja do irmão de Francisco Nunes, estava a Farmácia Central (1894), o prédio mais antigo do comércio ainda de pé, onde o médico Pedro da Costa Dórea atendia aos pacientes em vulnerabilidade social. Foi prefeito de 1951 a 1955. 


Do lado oposto à Barreto, havia o famoso Armazém Progresso(1905) da família Vasconcelos, ao lado da loja de José Maia, onde hoje é a sapataria Real. Roque Nascimento tinha dois prédios, inaugurados em 1920, um em cada esquina, na quadra onde fica a Ananda, comerciante de produtos esotéricos. Um imóvel também de grande valor histórico, na praça da Bandeira , foi recentemente demolido para a construção de sua agência pelo banco Itaú, datava de 1918. Durante a reforma, após retirada da placa do banco, via-se a inscrição na parede com o nome da loja.


Existe uma perspectiva nova para este conjunto de inestimável valor histórico, segundo a secretária de Cultura, Iraci Gama. O prédio da Prefeitura está em processo de tombamento. Ali funcionará um centro pró-memória da cidade com museus de arte sacra, outro dedicado às comunidades de matriz indígena e africana, sala de cinema e um setor de atendimento turístico. O salão verde já está sendo reformado (reformulado) para a criação de um espaço destinado às artes cênicas – teatro, dança, performances. Está na hora de descobrir as antigas fachadas dos prédios históricos, mostrar que aqui, como diz Iraci Gama, é uma terra de tradição. Restaurar o chalé da estação, dar uma virada para o futuro reencontrando com o passado.


O sonho de Pedro Marcelino de fazer o Plano Diretor participativo que revele os anseios de vários segmentos e os concilie, sensível à inteligência coletiva, está no momento de acontecer. As ideias de desenvolvimento urbano de Juscélio Carmo estarão em tempo propício para sair do papel. Ele pensa em uma cobertura para a rua Anísio Cardoso (Calçadão), criando um ambiente de sociabilidade com uma concha acústica. Em cima do mercado do Artesão, ele enxerga um estacionamento. E na parte inferior, uma praça de alimentação, dando uma nova disposição para a venda do artesanato. Um anel viário para toda a cidade e um balneário, aproveitando as águas térmicas do Miguel Velho.


Sobre as fontes de pesquisa:


Nesta matéria “Um tour pelo patrimônio histórico de Alagoinhas”, houve duas informações sobre Saturnino Ribeiro colhidas do artigo de Keite Maria Santos do Nascimento Lima “O coronel Saturnino Ribeiro da Silva e a cidade de Alagoinhas-Ba: Uma história de reconhecimento e esquecimento (1905-1937)”, apresentado no XXVIII Simpósio Nacional de História, Florianópolis – 2015. A fonte não foi mencionada no texto porque os dados estavam entremeados por outros, fornecidos por  entrevistados. O mesmo ocorreu com o dito pela professora Iraci Gama, que contribuiu com 50% do conteúdo exposto, mas que também estavam misturados ao mencionado por outras fontes. Para esta matéria entrevistei ainda Pedro Marcelino e Juscélio Carmo. 

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.